O grande desafio de todo(a) Artista é ver diante de si uma tela branca, mesmo que preparada pelo Fabricante, mesmo que diante de si esteja o tema, seja uma natureza morta, uma paisagem, um retrato, ou até um projeto abstrato.
Sim, acredito que em regra geral, pelo menos com os colegas com quem tenho falado sobre este assunto, é unânime o sentimento de reflexão e “vazio” estar em frente à uma tela branca, deste plano alvo, ou frente a um determinado tema...
Sem desconhecer o fato de que os Fabricantes preparam previamente a tela, com uma camada de branco (PVA ou gesso de base), não me dou por satisfeito e aplico diversas camadas da tinta dentro da técnica que pretendo trabalhar, isto é: se a obra será executada em óleo, então a camada preparatória será de tinta a óleo; se acrílica, então acrílica, e assim por diante, observando sempre a cor dominante do tema.
Determinado senhor, pai de um Artista Plástico, ao rever o manuscrito do filho, que seria editado, comentou:
“Filho, o início de uma obra de Arte deve ser comparado ao alicerce de uma casa: se o alicerce estiver bom, a casa é sólida...” Pois é assim mesmo, onde muitos lamentavelmente desprezam o preparo da tela, (“o alicerce” da obra de arte), começa exatamente o sucesso de toda a obra. Sua luminosidade, temperatura de cor, força de expressão e comunicação, desenvolvimento, calor, e sobre tudo: “a alma do artista”
Iniciar uma tela em branco, sem preparo básico da tela, e “riscando” o tema, é perder o mais atraente na arte: a autenticidade, o êxtase de sua criatividade. Isto inclui também a escolha de tema, sem cuidados com o seu envolvimento ou estado de espírito para com o tema escolhido, a técnica e os recursos disponíveis...
De certa vez, estava diante de uma praia em Araruama/RJ, nos idos de 80, e com todo o apetrecho a que tinha direito para executar uma aquarela. Sim, seria uma aquarela marinha. Mas o pensamento estava muito longe daquele recanto, estava “navegando” em outras margens... Pois a dado momento, naquele silêncio gostoso do ambiente quase isolado do mundo, olhei o papel branco, comecei a prepará-lo, a esboçá-lo e, de súbito, diante da criatividade que a arte estimula, me vi frente a uma paisagem rural, que vislumbrava opostamente àquela praia. Uma paisagem com regato e características de uma autêntica fazenda, árvores, e até gado. Aquela aquarela fluiu como que uma cachoeira límpida...
Esta experiência me valeu outros momentos, quando procuro mentalizar uma cena, quer esteja eu onde estiver, e colocá-la na tela usando de todos os recursos que a fantasia, a imaginação (nosso “arquivo mental”) permite, o que aliás como já disse, nos leva ao verdadeiro devaneio, êxtase pleno da autêntica criatividade.
O preparo da tela, aquelas camadas prévias que antecedem a pintura, facilitam em muito o desenvolver da obra e, acima de tudo, inspiram pelo processo da ação da psicologia e ótica da cor sobre todo o desenrolar do tema.
Pintar ao vivo, ou como se diz: “a la prima”, é fantástico, e porque não dizer, excitante. Mas deixar-se envolver pela qualidade e técnicas, e pela espiritualidade local, a paz, a serenidade e a criatividade pessoal, é ainda mais engrandecedor e enriquecedor de todo o trabalho e do próprio Artista.
Não veja a arte apenas como um elemento decorativo, mas essencialmente como elemento de comunicação ou até de rebeldia e formadora de opinião. Seja você, basta querer...simplesmente faça!