A Reforma Cristã e as Artes
W.L. Berner / Orientador de Artes

A arte sempre teve grande motivação e até influência incondicional e indiscutível através da Igreja Católica, principalmente antes do século 16, quando ainda era única e soberana a força do catolicismo em todas as áreas da Cultura e da Ciência.

Esta influência decisiva, permanece até hoje, por vez que as Igrejas, mesmo as atuais, são de certa forma ornamentadas com obras de arte, quer sejam obras plásticas, musicais, dança (veja dança litúrgica), teatro, ou tantos outros segmentos das artes como um todo. A partir do século 16, mais precisamente a partir da reforma proposta por Martinho Lutero, com suas considerações e análises, que resultaram nas 95 tezes, desencadeou-se em todas as áreas, grandes discussões, já que sua proposta era, entre outros, dar ao povo acesso direto à Cultura, à leitura das Sagradas Escrituras, e ao conhecimento como um todo.

A partir daí, e reforçado por outros Reformadores, como Calvino, a humanidade passa a ter maior liberdade de expressão, um acesso maior aos relatos bíblicos, e históricos, abrindo-lhes o horizonte cultural que lhe permitiu, e permite até hoje, tomar ciência à luz de uma realidade social direta e não “interessadamente conduzida”.

Sem dúvida que os séculos que se seguiram à Reforma Cristã, (séc.16), ainda carregaram consigo a influência do Clero e das forças Feudais e Imperiais, isto porque com estes, estavam concentradas as riquezas que permitiam a contratação de um Artista (e sua equipe, geralmente) para executar as monumentais obras até hoje preservadas.

Seria injusto portanto, atribuir ao assim chamado “protestantismo” (os reformadores do séc.16), um conceito de “aliciadores das artes” ou como alguns preferem: “inibidores do processo artístico”, alegando que a proposta reformadora de Lutero ou mesmo de Calvino eram a favor do “voto de pobreza” e da não ostentação...

Cabe lembrar que justamente a partir deste “protestantismo” , prefiro dizer: a partir da “reforma”, a humanidade, como disse, teve novos horizontes a explorar. E nas artes, em especial, nascem os desafios realmente encorajadores de não se ficar apenas “sob a áurea” dos que detinham o poder, mas dá aos Artistas de então a coragem e o desprendimento de expressar-se através de suas capacidades, de seus dons e de suas criatividades interpretativas e sensibilidade peculiar, para colocarem em suas telas não mais apenas aquilo para o que tinham sido contratados, mas os seus pensamentos e formas de interpretar o cotidiano, sem o dogma do preconceito... “sem a força do poder” Acredito portanto, e insisto, que a Reforma Luterana e Calvina e as que se seguiram, contribuíram imensamente para o desenvolvimento e liberdade de expressão na Arte, e não o lamentável conceito de “castrador das artes”.

Não nego que a Igreja, assim como os Impérios em geral, contribuíram indiscutivelmente, ao longo dos séculos para o imenso acervo que temos até hoje nos Palácios, nas Capelas e Mosteiros, nos Museus e Basílicas.

Há no entanto que se lembrar que grande parte do acervo artístico de hoje nasceu em maior quantidade após a reforma cristã...com absoluta liberdade de expressão. Mas o que seria das artes, do ponto de vista deste “direito de liberdade de expressão” se não tivessem ocorridos os episódios do século 16 ? Estaríamos até hoje pintando o Clássico, o Barroco e o Rococó, ou a tradicional pintura religiosa dos grandes Mestres...?

Onde estariam os Impressionistas, os Expressionistas, os Cubistas, enfim nossa pintura contemporânea, de vanguarda? Onde estaríamos hoje...?

O recente tratado que assinaram as Igrejas Católica e Evangélicas Cristãs ( em destaque a Católica e a Luterana), procura o relacionamento religioso mas também cultural entre elas, respeitando todavia os princípios básicos de cada Credo, sem com isto propor uma unificação eclesial, mas visa primordialmente uma “Unidade Cristã”, sem preconceitos e sem discriminações, o que vale fundamentalmente para a humanidade como um todo, mas tem igual peso a cada setor educacional, cultural, e também nas artes plásticas, buscando o anseio da humanidade neste novo século que vem, o 21o. de nossa existência Cristã, ratificando a reforma do século 16, e acrescentando às propostas de então, novos valores humanitários, visando principalmente um verdadeiro sentido da vida.

E estas reformas (séc. 16), assim como o recente tratado eclesial (1999), devem ser examinados pelos Artistas que se preocupam com a comunicação de vanguarda, para que possam ser os protagonistas de uma realidade de Vida, digna e irmanada, sem dogmas e sem discriminações... “Pelo amor para um verdadeiro sentido de vida”.

Cordial abraço


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