Cenário artístico
W.L. Berner / Orientador de Artes

Certa feita encontrava-me a pintar uma paisagem à beira do rio Piabanha, ou melhor, “sobre” este rio, já que estava no centro da ponte que o cruza, quando pude observar ao longo daquela seção de pintura, como a paisagem ia se transformando por questões da luz incidente, do sol que se deslocava, sem dar chance ao mortal pintor de “captar” um único momento sequer daquela cena maravilhosa.

Não satisfeito, nem tão pouco surpreso com esta problemática, após intensas cinco horas de trabalho com sol a pino, resolvi captar as luzes do entardecer, isto é, as luzes que se projetavam formando belos contrastes do claro e escuro, das três horas da tarde, justo o horário mais coerente com a chamada “temperatura da cor” (Graus Kelvin) , e também fazer uso da “modernidade” e fotografar aquele exato momento para uma posterior reavaliação ou, como preferem alguns, uma releitura de todo o trabalho.

A paz que dominava, ao final daquela tarefa, me colocou frente a uma bela e serena paisagem e me fez refletir sobre algumas questões da vida, da Natureza, do Divino, e também das teorias que envolvem a arte como um todo.

Me veio a lembrança uma frase que citei em outra oportunidade. Disse então: somente pela luz se terá ciência das formas e cores que abraçam o corpo, mas somente pela paz do coração se verá o esplendor desta harmonia.

Pude neste momento, sentir a realidade destas palavras e perceber que, mesmo tendo que contornar as questões inalteráveis do tempo (horas), sobre as quais não temos domínio... as horas passam... a beleza do transcorrer daquelas luzes e sombras se somavam num devaneio que só a vivência de tal episódio pode confirmar.

Outros momentos de reflexão foram revolvendo minha mente: que pena, pensava eu, que dentro de tamanha beleza natural, existem tantos detritos e rejeitos , tanto lixo largado a beira rio, sem menor respeito às vidas humanas contemplativas, mas... pudera... fomos nós mesmos que cometemos estas atrocidades...

Por “consolo”, ou melhor dito, para a alegria ser refeita, me lembrei das palavras de Gui de Maupassant : “o artista tem a liberdade de enxergar, de criar um mundo mais belo, mais simples, mais consolador que o nosso”...

O artista, felizmente, tem esta liberdade. O ser humano, nós enfim, também. Basta querer...

Esta sensação, e esta experiência, que não foi a primeira vez, e a decisão de fotografar estas variações de luz e ambiente, me fizeram também lembrar de uma carta que Paul Cèzanne escreveu para seu filho pouco antes de morrer. Escreveu assim o grande Mestre: “devo dizer-lhe que, como pintor, estou começando agora a enxergar melhor a natureza, mas comigo a realização de minhas sensações sempre é muito difícil. Não consigo captar a intensidade de tudo que se desdobra diante de meus sentidos. Não alcanço a riqueza da natureza. Aqui na beira do rio, os motivos são tantos, que o mesmo objeto visto de um ângulo um pouco diferente já daria para estudos do maior interesse, e tão variados, que eu poderia trabalhar por meses a fio sem mudar de lugar, simplesmente olhando um pouco mais para a direita ou a esquerda”.

Uma realidade sensacionalmente indiscutível. É assim mesmo, se tivermos olhos para “enxergar” e não apenas “ver”, estaremos diante de um acervo inesgotável de temas e cenas de nosso cotidiano, de nossa vida.

É lastimável, repito, que estas cenas, são frequentemente depredadas...“inundadas de rancor e descaso”.

Ser artista plástico, protagonizando esta imensidão de paisagem em que Deus nos permite viver, é um privilégio que pode, e deve ser, compartilhado por todo ser vivente, para uma vida mais digna e mais bela, como disse Maupassant.

Enfim, retratar o belo é um privilégio do artista, mas “preservar o belo” é um dever de todo ser humano, pela preservação da própria humanidade, da própria vida.

Até breve.


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