O Barroco foi um período marcado pelo realismo e pintura clássica, em que valiam principalmente as mensagens, contos ou cenas bíblicas, que o Artista retratava em sua obra.
Rembrandt van Rijn (1606-1669) foi um destes grandes Mestres que detinha a qualidade ímpar de produzir com muita força o sentimento, a expressão, e o realismo tão importantes da época. Seus Auto-retratos, quer como jovem, notadamente visto como pessoa decisiva, extrovertida e ansiosa por liberdade, ou já em idade avançada, onde se vê claramente em suas feições além da serenidade, um profundo olhar de amargura, ressentimento, dor e vida.
A pouco tempo atrás, recebi de uma Irmã, um livro do Padre Henri J.M. Nouven, sob o título "A volta do filho pródigo". Na verdade esta preciosa obra literária, é uma interpretação de grande conteúdo religioso e humano, sobre a obra de mesmo nome, pintado por Rembrandt.
"A volta do filho pródigo" é realmente impressionante. O conteúdo narrativo desta parábola bíblica descrita em Lucas, 15: 11-32, conta o episódio de dois filhos e seu pai. O mais jovem exige e apossa-se de suas heranças, vai ao mundo, ao submundo, até à miséria total... e retorna aos braços do pai. Conquanto o filho mais velho, fica junto de seu pai, fiel, trabalhador, cumpridor de seus deveres, vida correta e digna. O pai, senhor de muitas posses, ponderado em decisões sábias, acolhe o filho perdido com grande amor, e ao mesmo tempo sabe conduzir com carinho a revolta do filho mais velho, diante de sua indignação quanto a acolhida dada ao irmão mais moço.
Este livro do Padre Henri, assim como a própria narrativa de Lucas na Bíblia, ficam impressionantemente claros quando se pode contemplar a obra de Rembrandt. Em especial se vamos não só ver a obra como um todo, mas começamos interpretá-la do ponto de vista de seu Autor e cada detalhe que ele sabiamente, à luz da narrativa, insere em suas geniais pinceladas. A expressão facial do pai acolhedor, madura e carinhosa; suas duas mão (veja atentamente) sendo a mão esquerda é máscula, decidida, forte, amparadora, sustentadora, enquanto a mão direita é delicada, fina e leve, como a mão de uma mãe, consoladora, carinhosa, meiga... O manto exuberante do pai é pintado de vermelho demonstrando sua riqueza. Contudo sua forma sugere acolhimento, proteção, aquietação.
O filho pródigo, diante deste pai firme, sereno e acolhedor, prostra-se ajoelhado, com o pé esquerdo descalço, demonstrando a mais desprezada situação que um ser pode chegar. Roupas sujas, face escondida, humilhação...
Não obstante à sua desgraça, consegue ainda forças para achegar-se ao pai e pedir perdão e reconciliação, mesmo que para isto não fosse mais tratado como filho, bastado ser acolhido como serviçal, escravo, pois mesmo nesta condição estaria mais bem situado do que anteriormente. Mas o pai, soberano e ciente de seus atos, o recebe como filho. Seu irmão mais velho, no entanto, representado no quadro como observador distante, sente-se injustiçado diante desta acolhida, pois em toda a sua vida foi fiel e dedicado ao pai, incondicionalmente. Revolta-se com toda esta situação, discute com o pai, com seus serviçais, enfim, está desgostoso pelo muito que tem feito, e pouco reconhecido.
Uma situação familiar que realmente é muito comum também em nossos tempos. Não sabemos muitas vezes quem somos nós mesmos: o filho pródigo ou o irmão mais velho? Ou seríamos o pai que perdoa a ambos, acreditando com toda sua sabedoria, que de um lado, o arrependimento está em questão, assim como a reconsideração está no outro extremo? Ou ainda como os outros figurantes... meros espectadores?
Forças, expressões, riqueza de detalhes, perfeita harmonia das cores, posições e gestos, texturas, composição, expressões faciais indiscutivelmente marcantes e reconhecidas... Tudo isto, e muito mais, é identificado nesta obra magnífica de Rembrandt interpretando Lucas, 15.
Tudo isto, e muito mais, nos é trazido através desta obra e da narrativa, para mostrar-nos a grandiosidade do perdão do Pai, e principalmente nos leva a uma reflexão ímpar, do espaço que nós estamos ocupando neste cenário, que não mudou nada, mesmo agora em 2000... Quer sejamos o filho pródigo, o mais velho, o pai, ou um dos espectadores presentes na "obra" da vida, estamos vivendo as oportunidades diárias do reconhecimento, do perdão, da sabedoria no discernimento, do amor sereno, da comunhão, mesmo diante das atrocidades da vida, mesmo diante das injustiças que como humanos cometemos, somos vitimados ou não compreendemos.
Lembro, como já salientei anteriormente que, como nesta obra, é bom entender o verdadeiro sentido da mensagem que o(a) autor(a) deseja registrar. Por mais simples que seja a obra, sempre há um "recado" para nós.
Esta semana, a partir de 24/02 e até 26/03, estarei expondo uma coleção de paisagens serranas entitulada "Nos Arredores", lá no SESC da Rua Alfredo Pachá, 26. Convido aos(as) caros(as) leitores(as) para "conferirem" a bela Natureza que nos cerca e o conteúdo de cada ângulo e suas mensagens tão cativantes que antes nos referíamos, e que aqui procuramos salientar com o Mestre Rembrandt. O belo está ao nosso redor, basta querer enxergá-lo...
Cordial abraço, até breve.
W.L.Berner