"A pintura de paisagem no Brasil tem em Franz Post o seu primeiro marco. Foi através do grande Artista holandês que o mundo começou a tomar contato com o esplendor de nossa paisagem." Assim inicia um exemplar raro sobre a biografia deste mestre que foi Edgar Walter, contemporâneo, que não raras as vezes esteve em nosso meio nos Salões petropolitanos de Pintura.
Edgar nasceu em 1917 na pequena cidade mineira de Nova Lima, e de lá, com brilhante carreira artística e apoios irrestritos de parentes e amigos, trilhou pelo mundo das artes destacando-se inegavelmente nas paisagens que produziu, em grande escala no Brasil, mas também no exterior, fruto de seus prêmios auferidos.
Foi discípulo de Oswaldo Teixeira, de quem Edgar comenta: "Oswaldo Teixeira é sem dúvida, o maior pintor de nossa época... Tudo devo a ele."
Sua trajetória artística deixou fortes lembrança aqui em nossa cidade, mesmo sendo ele um mineiro e com trânsito influente no Rio e em São Paulo.
Casou-se com Dona Helena Fairbanks, depois de um romance bastante característico da época e dos costumes mineiros. Tiveram filhos: Carmem, Ângela, Paulo, Lúcia e Heloísa. Todos certamente orgulhosos do pai, digno desta admiração, Seu acervo artístico conta com grande número de paisagens e retratos, bem como naturezas mortas, sempre carregadas de qualidade e imensa luminosidade, que até hoje, seus alunos e seguidores, exploram, pesquisam, estudam, num interminável conteúdo de referências que nos levam, como artistas a uma releitura do belo, da cor, da vibração dos verdes e ocres, da exuberância e respeito à Natureza.
Os jornais de então comentavam assim as obras deste Mestre:
"A técnica é segura e fina, e a sensibilidade do pintor é patente..." ou ainda: "... é um dos artistas que melhor sabe interpretar nossa luz e a tonalidade de nossos verdes." Mas não só na paisagem Edgar se destacou. Uma de suas obras que muito admiro, é "Vendedora de Uva" pintado em Florença e tendo como modelo a jovem Ângela Maria, sua filha. É uma tela que expressa com singela beleza o semblante de uma moça meiga e profundamente pensativa, quem sabe sonhando com seu Brasil distante...
Suas representações de águas, rios e lagos, luz e sombra, perspectiva aérea, contrastes, são evidentes e marcantes na obra "À beira do Arno em Florença", como "A velha ponte da Fazenda Modelo".
Não se limitou a apenas seu trabalho e sua obra, mas soube com inigualável propriedade e carinho, transmitir para seus alunos e alunas, todo seu conhecimento, sem poupar esforços, que para alguns vanguardistas, sirva de exemplo e de motivação ao compartilhamento.
Edgar e o então grupo de seguidores, formam a Escola d Naturalista de Minas Gerais. Um grupo preocupado no estudo da beleza e da riqueza das paisagens de nosso imenso Brasil. Nesta oportunidade Sebastião Fonseca declama, em prosa e verso:
"Ao Mestre
Em cada toque de luz
Doirada do sol que conduz,
Graciosa tu'alma de artista,
A natureza retratas,
Revelas o encanto das matas,
Do mundo o aplauso conquistas"
Merecidas palavras para um Mestre que jamais desviou-se de seus propósitos, e que amou a sua arte e suas paisagens, como sua própria família. Ele disse certa vez: "...sinto que a natureza me é tão compensadora, tão completa, da mesma forma como me sinto em casa." Referia-se com estas palavras, sua ansiedade de permanecer sempre fiel a sua temática e seus pincéis. Um verdadeiro exemplo de desprendimento, decisão e desafio aos critérios universais da arte, que sempre provocam ao artista em novas técnicas e novos caminhos. Por ocasião de mais um dos salões de Belas Artes de Petrópolis, promovido pela Sociedade Petropolitana de Pintura, já existente então, Edgar Walter é laureado com seu trabalho "Em torno da Manjedoura" uma das obras primas dignas da premiação recebida.
Companheiro de muitas parcerias e debates produtivos, com os amigos como Solon Botelho, Van Dijk, Orlando Teruz, Sylvio Pinto, e tantos outros. Lamentamos nós, que tivemos pouco ou nenhum contato pessoal, mas ao mesmo tempo sentimo-nos imensamente gratificados quando podemos analisar e estudar estas obras, e até sentir-se motivado e influenciado, mesmo que modestamente, por seus temas e técnicas.
Um Mestre que deixa para a posteridade um exemplo ímpar de vida, dedicação e carinho.
Até breve.
W.L.Berner