A composição temática que o Artista se propõe a levar para a tela segue, vias de regra, a critérios bastante expressivos, quer seja uma obra abstrata ou figurativa. O "acaso" a que alguns Artistas se referem, com propriedade, não é aquele em que se acerta casualmente... É antes de tudo o envolvimento pleno do Artista com o seu propósito temático. Aí sim, certas tomadas de decisão e certas pinceladas são expontâneas e tamanhamente intuitivas que poderiam até ser vistas como um ato ou gesto casual. Mas não o é, certamente.
Na pintura abstrata, muitas vezes vista como um "acerto casual" ou por outro ângulo, um "infortúnio sem fundamento", é na síntese de sua execução uma seqüência de planejamentos, projeto temático, decisão de materiais e técnicas que serão utilizadas, dimensionamento da obra, análise do seu potencial de comunicação dentro da proposta do Artista, enfim, um sem número de decisões até que um projeto abstrato seja consolidado. Não é portanto tão simples assim como alguns pensam...
Na pintura figurativa, seja uma paisagem, uma natureza morta, um retrato, ou uma composição idealizada pelo Artista, o "acaso" também pode ser uma questão intuitiva, fortuita, ou até acidental.
Todavia, os critérios de estudo e pesquisa temática, são tal qual na abstração, fator preponderante que pode decidir o sucesso da obra ou seu total fracasso.
Estes dois comentários, conduzem a uma avaliação mais criteriosa daquilo que se propõe colocar sobre a tela, tal como o é na composição de uma partitura musical ou de um poema. É de relevante importância saber-se responsável com o trabalho proposto e a comunicação que este trabalho vai transmitir a quem o contempla. Aliás um comentário no qual nos vemos constantemente destacando devido a importância e o comprometimento que tem a obra para com a humanidade, para com o espectador.
Mas não somente esta responsabilidade está em questão, mas igualmente importante é a conscientização de que o que se produz necessita total intimidade entre o Artista, a tela e o tema, sem o que o "acaso" indesejado, fatalmente ocorreria, e traria à vistas nuas, a certeza de que predomina a insegurança do fazer.
Ver e enxergar, como o dito popular, é fundamental na certeza de seus projetos. Saber enxergar com clareza o trabalho ou o tema, é envolver-se com tudo que é inerente aquele momento do fazer.
Maurice Grosser, em seu Livro "The Painetr's Eye" (Os olhos do pintor), diz com muita sabedoria: "O pintor pinta com os olhos, não com as mãos. O que quer que ele veja, se o vir com clareza, será capaz de pintar. O ato de pintura exige talvez, muito cuidado e esforço. Mas não mais agilidade muscular do que o artista necessita para escrever o seu próprio nome."
É uma verdade impressionante, e mesmo na época do Impressionismo, quando surge também a máquina fotográfica, que passa a ser ferramenta indispensável do artista, até aos tempos atuais, a sensibilidade perceptiva e visual, mesmo com os modernos recursos disponíveis, não perde seu papel importante na composição de uma obra.
É de vital importância que o Artista tenha sempre em mente o ditado popular: "os olhos são as janelas da alma..."
Isto significa dizer que os sentimentos do Artista são percebidos em sua obra, e na pintura em geral, seja abstrata ou figurativa, por mais estranho que pareça, cada pincelada tem o peso de uma assinatura autêntica de seu autor.
Na paisagem em especial, é muito comum a reorganização ou introdução de certos elementos para uma harmonização mais bela, na medida em que a expressão poética seja relevante, assim como inversamente, a introdução de elementos agressivos podem retratar a angústia predominante.
Gui de Maupassant, disse: "O Artista tem a liberdade de enxergar, de criar um mundo mais belo, mais simples, mais consolador que o nosso".
Bom é saber que os grandes Mestres sempre enalteceram a criatividade, a sensibilidade, sem as quais a Arte certamente estaria num plano bastante mais inferior.
Em outra oportunidade disse: Ver o belo é enxergá-lo com os olhos da alma. Vale a pena relembrar...
Até breve .
W.L.Berner