O ABSTRATO: TABÚ, ARTESANATO OU ARTE?
W.L. Berner / Orientador de Artes

Abstrair-se, abstração, abstrato, e quantas outras palavras são utilizadas para esta forma de expressão ou manifestação artística tão questionada e, com os devidos respeitos às opiniões individuais, de certa forma discriminadas por alguns e desconsideradas por outros quantos.

Artisticamente, no Dicionário "diz-se da manifestação artística de conteúdo e forma alheios a qualquer representação figurativa, que é característica de diferentes épocas, culturas ou correntes estéticas, e transcende as aparências exteriores da realidade; abstracionista".

Na prática, ou melhor, na realidade artística, quando este se propõe a elaborar uma obra dita abstrata, é de relevada importância saber-se diante de um desafio extremamente complexo, e muito mais comprometedor do que a pintura figurativa, e isto porque a arte abstrata é um verdadeiro conglomerado de (em primeiro lugar) profundo conhecimento das mais diversas técnicas ( têmperas, encáusticas, gravuras, instalações...), ferramentas, utensílios, materiais (pigmentos, aglutinantes, suportes), aliados a igualmente profundo e íntimo conhecimento das inúmeras e diferentes teorias da cor, como Chevreul, Newton, Goehte, Albers, e outros; e ainda mais: uma real conscientização de que esta forma de comunicação tem um compromisso íntimo com os aspectos filosóficos, psicológicos e principalmente com os aspectos dos sentimentos e estados de espírito do(a) autor(a), naquele exato momento da criação. É portanto, como disse, um segmento artístico muito mais complexo, profundo e essencialmente comunicativo, do que qualquer outra forma de comunicação artística que se baseia no "ver e interpretar" ou "retratar (fielmente ou não) o visível".

A arte abstrata não deve ser vista com "olhos críticos" simplesmente, e também não o é conveniente praticá-la meramente como um elemento decorativo cuja combinação de cores "casualmente foi bem resolvida".

Esta modalidade de comunicação tem, antes de tudo, um compromisso muito sério com a personalidade do(a) autor(a) e igualmente com a pessoa que a contemplará. Portanto é mais comprometedor do que as artes convencionais.

Uma das grandes Artistas de nossos tempos, Fayga Ostrower, em seu livro "Acasos e Criação Artística", nos ensina com imensa propriedade e conteúdo todas as questões da realidade criativa, e em dado parágrafo, salienta: "Sem dúvida, o fenômeno da arte voltada para a abstração, tem muito a ver com o caráter dos conteúdos expressivos. A freqüente incorporação de acasos nas formas de linguagem apresenta as emoções como que cristalizadas em puro estado de afeto, sem acompanhá-las com uma elaboração mais intelectual ou com qualquer narrativa de circunstâncias às quais as emoções possam estar ligadas. As obras representam como que jornadas ao interior da vida pessoal do artista, em expressões de caráter quase que confessional (se, apesar do grande subjetivismo dos conteúdos, podemos participar deles, é porque foram transformados em forma de linguagem): Deparamos com o indivíduo que se pergunta sobre si e sobre sua razão de ser, buscando desesperadamente identificar-se uma realidade nova, realidade antiga, do princípio das coisas num universo mais natural e mais misterioso." E continua a grande Artista: " É a meditação de pessoas que se vêem sós diante de um mundo humano impessoal, sem valores e até mesmo sem símbolos coletivos".

Estas palavras, como todo o trabalho de Fayga, é um verdadeiro "néctar" para uma conscientização correta para esta questão do Abstrato, do Abstrato expressionista, enfim, da abstração no verdadeiro sentido da palavra e da técnica predominantemente. As questões fundamentais que se consideram na comunicação artística, quando esta propõe externar o "sentimento" do(a) autor(a), está sem dúvida intimamente ligada ao domínio correto daquilo a que se propõe realizar, conhecendo sobre tudo a si próprio, na certeza de que diante daquele ato está abrindo seu mais íntimo interior para ser contemplado e até criticado pelos humanos.

Aprendi a entender o abstrato, na medida em que entendi a plenitude do conteúdo da alma.

Até breve.


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