Em recente publicação nesta coluna, sob título "a Arte através da Gravura", escrevi sobre as diferentes técnicas artísticas da Gravura.
Acrescentando a esta temática mais alguns dados, não devemos confundir "Gravura" com reproduções de obras ou fotos por processos gráficos, que comercialmente também são conhecidas por "gravuras".
A gravura, para relembrar, consiste em utilizar-se de um suporte que pode ser madeira, chapas de metal, tela de nylon, pedra, linóleo, e desenhar sobre este suporte através das respectivas técnicas apropriadas.
Depois de entintada, grava-se sobre o papel, tecido, ou outros materiais compatíveis. Remonta a alguns séculos o uso destes recursos, mas são os orientais, no séc. XII que mais se especializam na xilogravura (gravura sobre madeira) e imprimem sobre o papel, por eles recém descoberto.
Somente muito tempo depois, é que a Europa toma conhecimento deste recurso e consegue a partir da virada do séc. XIX, se especializar nesta técnica, pois até então lhes eram desconhecidos tais recursos.
A cerâmica japonesa tem grande participação desta divulgação na Europa, isto porque os vasos importados do Japão, eram embrulhados em papéis muito finos impressos com belíssimas gravuras. Era na verdade um papel "refugado" proveniente dos testes de impressão conhecidos hoje como "prova de estado" (uma etapa onde o gravador testa suas fases de gravação). Foi assim que o Ocidente conheceu a "modernidade oriental", tanto do papel como da impressão seriada. Mas antes já se praticava a xilogravura em documentos religiosos no Ocidente.
Em 1423 surge na Europa a mais antiga Xilogravura, retratando S. Cristóvão carregando o Menino Jesus, entitulada "Cristóvão e o peso do mundo", feita para ilustrar a capa de um manuscrito religioso alemão (ver a reprodução). Conta a estória que o então guerreiro Cristóvão transportava pessoas por um rio, no simples desejo de "servir", ao senhor mais forte que encontrasse. E segue o conto...
Certa noite, transportou um menino e se apercebeu do seu peso, e comentou...:
-"Puxa menino, como você parece tão pesado... 'como o mundo'..."
"Sim, respondeu o menino. Eu criei o mundo e sofro com os pecados dos homens"...
Desta forma, o "guerreio Cristóvão" compreendeu que havia carregado em seus ombros o próprio Jesus Cristo....
Sim, são estórias e mais estórias que se contam e ilustram através dos séculos, com auxílio da gravura, como até hoje o vemos nos "contos de cordéis" (pequenos livretos impressos manualmente com xilogravura) no nordeste de nosso país, e em fantásticas obras também brasileiras, como as gravuras de Goeldi, Senisse, Grillo, Geiger e quantos(as) mais de alto valor artístico.
Os impressionistas, sec. XIX, em especial Monet e depois Van Gogh, foram amantes da Gravura.
É do mestre Van Gogh as seguinte frase: "Planta-se um grão, colhem-se várias espigas", isto porque através da gravura pode-se editar uma série de originais de uma mesma obra (não confundir "editar" com "reproduzir").
Em nosso país, o destaque fica para Oswaldo Goeldi, nascido no Brasil, viveu na Suiça entre 1901 a 1919. Começou fazendo xilogravura em 1924 e ficou nesta técnica até o final de sua vida. Ele descreve: "Nunca sacrifiquei a qualquer modismo o meu próprio eu. Caminhada dura, mas a única que valeu a todos os sacrifícios".
Sim, persistência, amor e dedicação, características fundamentais para quem pratica a Arte, qualquer que seja ela.
Até breve