Fato curioso é a força de comunicação que se pode alcançar através das artes, principalmente artes plásticas, quando se deseja atingir o sentimento ou, melhor dito, a reflexão do espectador.
Comunicar-se através das artes é um privilégio daquele que se encoraja na prática ou na vontade de externar seus sentimentos para que seja visto ou ouvido, ou até sentido (escultura sensorial).
O grande ator dos tempos do cinema mudo, Charles Chaplin, já dizia: "os artistas fazem coisas que as 'pessoas sérias' acham ridículas, mas que gostariam de fazer". Grande verdade, quando se observa que alguns Artistas não pouparam esforços para colocar nas suas obras todo o sentimento que desejava.
Ao analisarmos as cores e as tabelas cromáticas, e suas influências sobre o olho humano, vamos verificar que cada cor tem um sentido, um valor representativo na obra. Assim era bastante comum, por exemplo, que os Reis e os mais abastados, ao contratarem um Artista para pintar-lhes um retrato, fossem definidas quais as cores que seriam utilizadas para as mais importantes personalidades e quais as cores dos "súditos", a plebe. Vamos verificar também que as expressões faciais, ângulos, e dimensões e proporções físicas também eram relevantes e importantes na composição artística.
Lembro a obra de Giotto, "O beijo de Judas" pintado em 1305 a 1306, onde podemos com precisão verificar estas questões de valor e expressão. Nesta obra, vemos as cores nobres (Azul, Vermelho) nas roupas dos Santos, de Cristo e das Autoridades, conquanto o Judas tem seu manto em amarelo pálido (cor própria da traição, do doentio...).
Leonardo da Vinci, grande Mestre da humanidade, século 15, utilizou-se muito da força da expressão cromática e física. Conta-se (publicado na Internet) a seguinte estória: "Era ano de 1494, a cidade era Milão, na Itália, Leonardo da Vinci deu uns passos atrás, contemplou o mural da Ultima Ceia que estava pintando, e suspirou. Estava completo, com exceção das figuras de Cristo e de Judas.
'Onde encontrarei um semblante tão inocente e sublime que verdadeiramente represente a Jesus ? E onde encontrarei um rosto tão endurecido pelo pecado e engano, que possa representar a Judas Iscariotes?' - refletiu ele.
Certa manhã, no coral de uma capelinha, Leonardo viu um jovem com um rosto tão inocente e sublime, que concluiu ter encontrado seu modelo para Jesus. Durante vários dias o rapaz posou para o grande artista. Quando a figura de Jesus ficou concluída, o jovem olhou para a pintura: 'Impressionante, não e' ? - disse o rapaz. - Como eu gostaria de ser mesmo semelhante a Ele!' - Você pode - respondeu Leonardo - Simplesmente siga o seu exemplo.
Mas a obra de arte não estava concluída. Faltava ainda a figura de Judas. Leonardo caminhou pelas ruas da cidade à procura de uma face marcada pelas linhas da amargura e do remorso. Nenhum rosto era suficientemente depravado para servir de modelo a Judas.
Anos se passaram, e o mural continuava inacabado. Então, certa noite, no ano de 1498, Leonardo voltava para casa quando foi abordado por um pedinte. Ao olhar para o rosto do homem maltrapilho, viu olhos inteligentes mas anuviados pelo remorso, e uma fronte marcada por anos de iniquidade.
'Acompanhe-me - disse Leonardo, com agitação. Vou dar-lhe alimento e cama por esta noite. Preciso pintar uma figura tendo-o como modelo. Pago bem'. Na manha seguinte, o rude e maltrapilho mendigo sentou-se, enquanto Leonardo lhe pintava a face na forma de Judas. Terminado o trabalho, o mendigo contemplou a pintura pronta.
Uma lagrima lhe rolou pelo rosto. Não me reconhece? - Chorou ele. - Sou a mesma pessoa que serviu de modelo
para seu Cristo, anos atras. Quem dera que eu tivesse seguido o seu conselho..."
Uma "estória", ou a realidade de nossa vida retratada no semblante de cada integrante desta obra magnífica?
Seja como for, e seja qual for a obra e seu, sua, autor(a), a cor tem tamanha influência como a expressão visual ou proporcionalidade física. Mas cada um, seja o Ator no palco, o Músico frente a seu instrumento, o Artista diante de sua tela, ou simplesmente cada um de nós, expressamos todo o nosso ser, todo nosso interior, através destes dois elementos fundamentais: "cor e expressão".
Estas palavras pretendem enriquecer uma tese defendida por muitos Mestres da Arte, principalmente entre os séculos 13 e 16, mas querem também nos permitir uma reflexão mais significativa do "ser e do viver".
Abraços e saudações artísticas