Mensagens e Pensamentos
Em Papel Branco

Walter no Atelier

De certa feita, estava diante de um papel branco, tal como as muitas vezes em que me encontro frente a uma tela, ao iniciar uma nova pintura. Várias lembranças se acumulam de repente em minha cabeça. Que estranho! Não paro de pensar no tema e na superfície alva. Uma verdadeira ânsia em conseguir as etapas planejadas, sem vacilar, sem deixar nada escapar...

Branco. Ausência total de cor (na pintura) ou soma total das cores (na ótica).
Ausência total, o vazio; mas soma de todas as qualidades, o pleno!
Penso nos habitantes polares que identificam mais de mil tonalidades do branco.
Seria o clarão indefinido das primeiras luzes do amanhecer? A Alvorada!
Seria a ansiedade do esperado, não visível? A fé!

Biblicamente, o "branco" aparece em diversas citações, mas uma delas descreve a singeleza desta Luz: (Ap. 1, 14-18) "A cabeça e os cabelos eram brancos como lã branca e como a neve. Os olhos eram como chamas de fogo... Não temas, eu sou o primeiro e o último, o vivente, estive morto, mas eis que vivo pelos séculos dos séculos". É em poucas palavras, a descrição do Transcendente.

Como ocorre com o Artista, ao ver a superfície branca e nela enxerga todo seu projeto, assim é também a imensidão que encerra o "pensamento em branco", rico em devaneios. Ávido pela revelação.

Quando pintava (e redigia) uma cena, meu filho descreveu assim, minha tela branca: "O tom desta obra tão bela / é agora representado / seja em terra, óleo ou aquarela. / É o homem em harmonia com ela. / Observa, / e põe sua impressão na tela. / De certo esta respeitável senhora / sente-se agora delicada donzela".

Transformar o branco em plano multicolorido é semelhante à fé que floresce naquele que deposita sua esperança no Criador que Se revela através da história de cada pessoa. Ocorre que este branco, pleno de esperanças, ao se "colorir", vai juntando os pequenos tons, detalhes, e ajustes, que nem sempre são os desejos pré-estabelecidos, e nem sempre são os resultados esperados, mas que ao final tornam em realidade a vida de antes um sonho pretendido.

Que critérios são estes em que os desejos não são atendidos plenamente? Desconhecimento de causa e falta de credibilidade ou de fé? A resposta é pessoal, mas é também transcendental. Tal qual o poder da oração, assim se projeta o poder da criatividade na arte. Sim, isto mesmo: oramos, pedimos, rogamos. Planejamos a tela, planejamos a vida; imaginamos o melhor para o projeto...Mas a resultante final, os critérios conclusivos, não pertencem à criatura. Pertencem tão somente ao Criador.

Nem sempre aquilo que planejamos e pedimos, nem sempre aquilo que almejamos ou o caminho que trilhamos e traçamos, vem na plenitude do planejado. Deus sempre intervém em graça e misericórdia, independente de nossas ansiedades, ou vontades, porque Ele deseja sempre o melhor para seus amados, mesmo que esta aparente "pincelada" seja do total desagrado da pessoa.

Não entendemos as razões divinas para aquela diretriz, mas certamente sempre é a melhor solução.

É como "enxergar" na superfície branca, toda a realidade que não se consegue "ver". Ver o Belo é enxerga-lo com os olhos da alma.
Eis porque a misericórdia divina deve ser recebida em plenitude de confiança e fé na graça de Deus.

Não convém buscar justificativas, entendimentos, ou razões pelas quais fomos merecedores daquela graciosidade divina, isto porque na ânsia de "buscar as razões", nos perdemos na fé; nos perdemos na total entrega a Deus; nos perdemos em mãos humanas.

Ë bom não entendermos a misericórdia de Deus, não entendermos Suas razões para nos agraciar. Basta-nos confiar-Lhe a nossa vida, o nosso "papel branco", e crer neste grandioso Deus.

W.L.Berner - janeiro/2002



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