Mensagens e Pensamentos
Ecumenismo

Torre (escultura em terracota) Um diálogo entre cristãos na diversidade...

Nem está tão distante assim em que uma carta levava semanas para atravessar o continente, ou o oceano. Certamente muitos ainda se lembram de como se desejava receber notícias de familiares.

Saudosismo? Não. Apenas início para uma reflexão.

Vamos rever uma história em Gênesis; a história de uma capital da Babilônia; ou seria uma torre? Babel.

(Gn 11, 1-9) "A Torre de Babel".
"Toda a terra usava uma só língua e as mesmas palavras. E aconteceu que, partindo do Oriente, os homens acharam uma planície na terra de Senaar, e ali se estabeleceram. E disseram uns aos outros: "Vamos fazer tijolos e cozê-los ao fogo". Utilizaram tijolos em vez de pedra, e o betume serviu-lhes de argamassa. E disseram: "Vamos construir para nós uma cidade e uma torre cujo cume chegue até os céus. Assim nos faremos famosos. Do contrário, seremos dispersados por toda a face da terra". Então o Senhor desceu para ver a cidade e a torre que os homens estavam construindo. E o Senhor disse: "Eis que eles formam um só povo e todos falam a mesma língua. Isto é apenas o começo de seus empreendimentos. Agora nada os impedirá de fazer o que se propuserem. Vamos descer ali e confundir-lhes a língua, de modo que já não se entendam uns aos outros". E o Senhor os dispersou dali por toda a superfície da terra, e eles pararam de construir a cidade. Por isso foi chamada Babel, porque foi lá que o Senhor confundiu a língua de todo o mundo, e de lá dispersou os homens por toda a terra".

Pelo que se percebe, era um povo bastante culto; a observar que "dominavam uma só língua"; coziam seus tijolos, quando era comum deixá-los secar ao sol. Planejavam e projetavam em conjunto. Trabalhavam com uma meta... Construir uma cidade e uma torre. Um verdadeiro planejamento de equipe organizada, bem aos moldes do que se poderia dizer de uma estrutura super "moderna". Não fossem as datas, diríamos que estes cidadãos estudaram nas melhores Universidades do século XX. Lembra-nos hoje as estratégias para a Globalização: uniformidade da moeda corrente; língua e comunicação universalizada; metas arrojadas, e interesses unificados. A informatização até aos níveis mais privativos... Quanta semelhança.

Deus no entanto derrama sobre eles Sua "Bênção". Como? Sua Bênção? Isto mesmo. Deus vai ao encontro do ser humano e vê sua capacidade intelectual e sua força de equipe; sua força empreendedora. Percebe no entanto que para o próprio bem daquele povo, isto não era o ideal. Era preciso "diversidades"...

E sabemos o que se passou: Deus os dispersou. Os fez "diferentes".

No âmbito da Igreja (global), faz-se necessário que busquemos um entendimento das vontades de Deus sobre o verdadeiro sentido desta palavra (Igreja, Eklesia), hoje tão "torre de Babel", isto é, tão "intelectualizada"; tão "normatizada" e antropológicamente tão estruturada e sistematizada, e moldada ente quatro paredes:
Uma verdadeira Cidade Babel. Uma Igreja antropológica.

Disse um Teólogo OFM. Católico: "A Igreja ideal é a que se entende na diversidade". Tal qual o também Teólogo Luterano, afirma: "A Igreja ideal é feita (constituída) por "diferentes". Temo aos 'diferentes' pois tendem ao fundamentalismo, (à apologia) mas encerram também uma dualidade produtiva. Temo a 'diversidade' pois sugere a dispersão (conformismo, acomodação), favorece ser a índole da 'pessoa', isto é: "aquele que dialoga".

Nos 'diferentes' ou na 'diversidade', reside contudo a vontade de Deus. Isto leva a crer que Deus não está tão a favor de "Igrejas Babel", como alguns imaginam ser o ideal.

Ecumenismo (oikumenikos) tem um sentido mais coloquial entre os "prelados". Diríamos, mais "dialogal". Portanto visa mais a coerência com a Palavra, em suas origens em suas verdades. A busca, em síntese, das raízes de nossa fé e sua coerência para hoje (Hermenêutica). Se assim há entendimento, o ecumenismo interdenominacional, globalizado, faz o maior sentido. Por vez que Deus não promulgou outra lei senão a Lei maior, que Seu Filho Jesus nos revelou: a Lei do Amor. E que Lei é esta senão aquela que todas as denominações cristãs pregam?

A "Igreja Babel" (globalizada) portanto carece urgentemente do "basta" de Deus. Carece da nossa humilde fraternidade e entendimento. Reconhecer o "fracasso da Igreja Babel" Conquanto o "Ecumenismo da Palavra pura e única" precisa ser, esta sim, "globalizada". Uma verdadeira Bênção de Deus. (Ora: é Sua única vontade!)

Assim cada qual, em sua língua, em sua comunidade, em sua pátria, a seu modo de ser e estar, de ir e vir, com sua história peculiar, pode então viver o grande Amor de Deus, em toda a sua magnitude. Ser "o" diferente, que sabe dialogar e aceitar "o outro diferente"; este sim, é o verdadeiro sentido de diversidade, , e de compartilhar a comunhão fraterna e o Amor Divino; no uso de uma única Verdade; a raiz de uma única profissão de Fé, sem dispersão, sem apologia radical, sem conformismo ou acomodação. Irmanada na Lei maior, O Amor fraterno.

Este modo de ser cristão, um cristão não globalizado enquanto Igreja Visível, e ecumênico enquanto Igreja Invisível, nos garante a liberdade de também dialogar ou no mínimo ser apologético (sem radicalismos) em relação àquelas denominações religiosas que não são identificadas como cristãs. Isto se aplica ao entendimento maior do que seja o amor de Deus porque todos, sem exceção, somos filhos do Criador Único, qualquer que seja o nome que a Ele, o homem venha a dar. É de se dizer que as diferentes definições e entendimentos da Divindade, podem dar uma conotação meramente antropológica, mas em síntese, todos pregam o Amor, e este Amor é gratuidade de Deus, a única Igreja "Templo Sagrado". Quem prega o Amor (com "A" maiúsculo) prega um único Soberano Senhor.

Não pense que o mundo é seu, mas pense no seu mundo com amor.
A paz está na humilde fraternidade que nos aproxima do amor divino, ao Deus da Paz.

TODO ESFORÇO ECUMÊNICO QUE VISA UNIFORMIDADE ESTÁ FADADO AO FRACASSO.
(2a. parte, o depoimento de um amigo)

"A questão do ecumenismo não reside na unificação de doutrinas, mas na questão do amor. Deus não pode ser reduzido a uma só face. Ao contrário, ele se nos revela justamente na diversidade, naquilo que é diferente e que, por ser diferente, nos coloca uma dimensão que nos desafia a pensar além de nós. Acredito que o grande problema do ecumenismo não está na pluralidade de igrejas e doutrinas, mas sim, quando nós, em nosso egoísmo, pensamos que a única forma de entender Deus é aquele adotado por nós. Eu só posso dialogar com o outro quando reafirmo e confirmo aquilo que eu creio. Mas ai de nós, se isto for motivo para não ter comunhão com aquele que é diferente de nós na sua maneira de crer e vivenciar a fé! Penso que em nossa caminhada com outras igrejas precisamos de muito amor e perdão. Mas também do espírito de discernimento, para que não juntemos gato com lebre em um mesmo saco. Talvez seja oportuno relembrar a distinção que Lutero fez entre igreja visível e invisível. Para ele, a verdadeira igreja é invisível, porque somente Deus a conhece. A igreja visível, por outro lado, é necessária porque é através dela que Deus realiza a sua obra. Mas esta igreja visível está cheia de acertos e erros, e nela estão misturados tanto crentes como descrentes. Lutero afirma que a igreja visível sempre de novo tem que pedir perdão, porque nela habitam tanto o amor verdadeiro como o amor próprio, o egoísmo, a falsidade e até a mentira. A igreja visível é uma igreja pecadora e por esta condição sempre de novo precisa do amor de Deus. Talvez por isso que, quando falamos de ecumenismo, nossa primeira tarefa seja a de pedir perdão a Deus porque não conseguimos ter comunhão com irmãos que pensam de forma diferente de nós. Nós nunca devemos confundir ecumenismo com diálogo inter-religioso. O primeiro se dá entre igrejas cristãs; o segundo, entre diferentes religiões. Sempre que tenho contato com outras religiões e culturas, sinto-me impotente e fragilizado. Como vou ter comunhão com alguém que não crê em Jesus Cristo, mas em Maomé ou Buda? Como falar de um Deus Todo-poderoso que convidou-me a falar de Jesus Cristo como único mediador entre os seres humanos e este Deus? Me parece que somente podemos falar de um Deus Onipotente a partir da impotência de Deus, manifesta no Cristo crucificado. Quando falamos da impotência de Deus, falamos do senhorio e do amor de Deus. Somente o amor é capaz de exercer poder de modo tal que outros não sejam destituídos de poder. Amor somente é possível quando concede a liberdade, não quando retira o poder daquele que é totalmente diferente de mim. "Não vim para ser servido, mas para servir", nos fala Jesus. Talvez fosse melhor pensar que nossa forma cristã de ser igreja não seja a única forma de transmitir o amor de Deus aos seres humanos. Talvez devemos pensar que, como igreja cristã temos uma missão, mas que a missão de Deus é muito maior e talvez até estranha para nós. Se Deus quer isto de nós, nosso maior pecado seria a busca da uniformidade; a maior bênção, no entanto, a vivência da fé a partir da tolerância e do respeito".

Instrumentos de Deus
Também entre os que não estão "teologicamente concisos", sentem atualmente que o 'radicalismo exagerado', o fundamentalismo 'apologético', nunca foram diretrizes divinas. Basta-nos apreciar com mais acuidade o texto da Torre de Babel, e principalmente o "diálogo de Deus" para esta tomada de decisão. Uma realidade revelada a tantos séculos atrás e que remete a uma reflexão eminentemente atualizada sobre a globalização. Somos todos de Deus para uma missão única da revelação Divina, e "parafraseando" a citação de Jesus, podemos ecumenicamente dizer que somos todos "instrumentos"de Deus, cada qual dotado de seu dom e sua capacidade, agir em Sua Seara, daí:

"Não vim para servir, nem para ser servido. Aqui estou para ser instrumento nas mãos de Deus"

W.L.Berner - novembro 2001



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