![]() |
Agenda • Culinária • Cursos • Dicas • Dinâmicas • História • Jogos • Meditação • Música • Trab. Manual • Teatro |
![]() |
|
|
180 Anos das Primeiras Comunidades Luteranas no Brasil.
Um grupo de imigrantes alemães de fé evangélica chegou em Nova Friburgo / RJ a 3 de
maio de 1824 e outro grupo em São Leopoldo / RS a 25 de julho de 1824. Estes
constituíram as primeiras comunidades que hoje integram a Igreja Evangélica de
Confissão Luterana no Brasil - IECLB. Outras levas se seguiram. Os imigrantes
evangélicos, de várias nacionalidades, eram em sua maioria luteranos, mas também
havia reformados (calvinistas) e unidos. Surgiram regionalmente comunidades e,
posteriormente, sínodos com peculiaridades próprias. Só ao longo de muitos anos, em
verdade após mais de século, as comunidades evangélicas desenvolveram e definiram
sua identidade teológica e eclesial como de confissão luterana. Também constituíram
uma igreja nacional, a IECLB. Isso se deu em 1949, com a criação da Federação
Sinodal, designação que posteriormente deu lugar ao nome atual da Igreja.
Repassando em retrospectiva nossa história de 180 anos, desde aquelas primeiras
comunidades, registramos, reconhecemos e enfatizamos:
Nossa gratidão
Em meio a muitas adversidades e promessas não cumpridas por parte das autoridades
imperiais, aqueles imigrantes, homens e mulheres com suas famílias e,
posteriormente, seus descendentes constituíram comunidades que se caracterizaram
pela ajuda mútua. Em sua maioria colonos, desenvolveram, em meio às dificuldades,
uma economia próspera, baseada na pequena agricultura, voltada para a produção de
alimentos básicos para a população. Artesãos e comerciantes, pequenos empresários e
industriários, deram primeiramente às comunidades rurais e, mais tarde, a cidades,
em particular do Sul do país e do Espírito Santo, um matiz peculiar, em que valores
culturais, ética do trabalho, ênfase na educação e, não por último, valorização da
Igreja ocuparam um lugar destacado. Diante da freqüente omissão do Estado nas mais
diferentes áreas, como, por exemplo, na educação e na saúde, tomaram suas próprias
iniciativas e as fizeram florescer. Nesse processo todo, contribuíram decisivamente
para um desenvolvimento mais equilibrado da economia de nosso país.
Somos gratos em especial pela herança eclesial e teológica. Constituíram-se
comunidades de fé. Igreja e Escola andaram de mãos dadas. Aqueles imigrantes e seus
descendentes perseveraram na fé evangélica, e a transmitiram a seus filhos e filhas.
Quando não havia pastores nem professores formados, escolheram dentre seus membros
quem melhor pudesse assumir as respectivas funções. Mantiveram e desenvolveram um
espírito sóbrio no trato das questões religiosas, respeitando crenças diferentes das
suas. Vivenciaram de maneira peculiar a maravilhosa dádiva da liberdade cristã. A
Bíblia, o Catecismo - preponderantemente o Catecismo Menor de Lutero - o canto e a
oração alimentaram sua fé.
Valorizaram sobremaneira a família e o associativismo. Mesmo preservando em boa
medida suas tradições culturais, por exemplo o estilo de suas casas, a culinária, a
indumentária, suas festas e, não por último, seu idioma, entenderam-se muito cedo
como cidadãos deste país que os havia acolhido, como a outros contingentes de
imigrantes, e sempre entenderam que estavam contribuindo para o bem-estar e o
progresso da nova pátria. No período das duas grandes guerras houve uma crise de
identidade. Vítimas de nacionalismo exacerbado, foram vistos com reservas e sofreram
uma série de discriminações. Contudo, superaram a experiência dolorosa,
fortalecendo-se em sua convicção e postura de cidadãos, integrantes do povo
brasileiro e comprometidos com este país.
Como Igreja somos gratos também pelas relações de intercâmbio e ajuda que, com o
passar do tempo, foram se estabelecendo com igrejas e sociedades missionárias da
Alemanha, país de origem da maioria dos imigrantes evangélicos, e, mais
recentemente, de outros países. Essas relações e essa ajuda contribuíram para o
desenvolvimento de uma igreja organizada e aberta à cooperação ecumênica e ao
intercâmbio entre igrejas de distintos países. A IECLB se desenvolve
progressivamente como uma entidade multicultural e multi-étnica, engajada na
promoção da cidadania e do espírito comunitário, embora num processo lento, tanto
por nossa carga cultural quanto pelo fato de conscientemente renunciarmos a práticas
proselitistas.
Nossa culpa
Embora os humildes imigrantes de então não pudessem ter consciência dessa realidade,
o fato é que com sua chegada ao Brasil vieram a ocupar, em diversos sentidos, um
lugar social que poderia e deveria ter sido próprio das comunidades indígenas,
detentoras originárias destas terras, e das comunidades negras do Brasil Colonial e
Imperial escravocrata. É emblemático que as primeiras famílias de imigrantes
alemães, chegadas a São Leopoldo, tenham sido alojadas numa antiga feitoria de
escravos.
Ainda que involuntariamente, as comunidades, que se desenvolveram, são, portanto,
parte da história de injustiça e desequilíbrio social de nosso país E, apesar das
discriminações que elas próprias sofreram, as comunidades de imigrantes, comparadas
com as indígenas e negras, obtiveram um lugar privilegiado na sociedade brasileira.
Projetos de colonização patrocinados pelo Estado concederam ou venderam terras
habitadas por indígenas a agricultores, constituindo-se este fato na causa primeira
de situações agudas de tensão e conflito ainda hoje existentes entre indígenas e
agricultores, entre eles também membros da IECLB.
Devemos reconhecer igualmente que em muitos lugares surgiu e prosperou entre membros
da Igreja um sentimento de superioridade cultural sobre outras etnias, em particular
a indígena e a afro. Somos ainda hoje vítimas e artífices de preconceitos contra
quem é diferente. Isso se faz sentir também nas novas áreas para as quais muitos de
nossos membros têm sido levados pelo fluxo de migração interna. No ano em que a
comunidade judaica comemora seus 100 anos de imigração ao estado do Rio Grande do
Sul, reconhecemos com profundo pesar que no período em que imperou na Alemanha o
nacionalsocialismo não fomos totalmente imunes a influências da ideologia da
superioridade racial ariana.
Na vida de nossas comunidades, muitas vezes um tradicionalismo superficial se
sobrepôs à necessidade de aprofundamento nas questões de fé. A Bíblia ficou
relegada, em alto grau, apenas ao seu uso no culto e no ensino confirmatório,
deixando de ser a fonte diária para a devoção em família. A tarefa espiritual e de
evangelização tem sido preponderantemente delegada aos pastores e às pastoras,
deixando de ser responsabilidade da própria comunidade e de todos os fiéis como
integrantes do sacerdócio geral de todas as pessoas que crêem.
Em tudo isso, carecemos do perdão de Deus e daquelas pessoas a quem temos ofendido.
Nosso compromisso
Diante dessa realidade queremos reafirmar os valores pelos quais somos gratos e
comprometer-nos a uma prática de superação daquelas questões pelas quais confessamos
nossa culpa. Com o 18.º Concílio da Igreja, em Pelotas / RS (1992), reafirmamos que
"Deus não é racista" e que, portanto, devemos superar em nós e entre nós todos os
preconceitos raciais. Nos 70 anos da Confissão de Barmen, que em 2004 celebramos,
documento com o qual cristãos confessantes da Alemanha resistiram à ingerência do
Estado nazista na vida da Igreja, declaramos nossa identificação com os conceitos
teológicos nela emitidos. Assim, confessando a soberania de Deus, revelada a nós em
Jesus Cristo, não reconhecemos sobre nós nenhuma outra autoridade do que a desse
Deus de amor. Portanto, não podemos fazer nenhuma distinção de valor entre as
pessoas, criadas todas elas à imagem de Deus, e pelas quais Jesus Cristo se doou.
Afirmamos a necessidade de respeitar integralmente a diversidade cultural, étnica e
religiosa. Comprometemo-nos, particularmente, em:
- empenhar-nos em favor da paz, da justiça e da integridade de toda a criação;
- exercer, na vivência comunitária, na missão e na diaconia, uma prática em favor da
inclusão social, superando toda espécie de exclusões;
- assumir com mais intensidade nossa responsabilidade pública, contribuindo para
fazer do Brasil um país mais justo e mais solidário, superando a pobreza e a
miséria;
- conjugar nosso envolvimento ecumênico com nossa tarefa de missão, no sentido de
proclamar com destemor as razões evangélicas da esperança que há em nós em face dos
desafios que se nos apresentam em nossa realidade, concomitante com o pleno respeito
à diversidade de opções religiosas.
Imploramos ao Deus de toda graça que acolha nossa gratidão, seja benevolente para
com nossa culpa e nos ampare em nosso compromisso.
|
|
| Idéias e Dicas para JE & ED • Favor mencionar autor e fonte sempre que utilizar este material. • Proibida a reprodução para uso comercial. | |